Wednesday, November 19, 2003


de Paz na Estrada, Letras com garfos

Sobre a sinistralidade. A vida e a morte. Sobre a Cristina, com saudades, onde quer que estejas.

Cristina
A CRISTINA ADORAVA SOL. NÃO PASSAVA SEM PRAIA. NÃO SAÍA DA PRAIA NEM POR 5 MINUTOS. NÃO PASSAVA SEM AREIA, SEM A ÀGUA DO MAR, SEM AS NOITES NO SEAGULL, SEM OS PASSEIOS EM SESIMBRA, SEM OS CREMES ANTI PROTECTORES PARA OS PÉS, PERNAS, MÃOS, CARA, LÁBIOS, CABELOS, TUDO! ERA A SENSIBILIDADE, A VONTADE DE VIVER ALIADA À DEFORMAÇÃO PROFISSIONAL- A CRISTINA ERA FARMACÊUTICA. A CRISTINA DAVA AS MELHORES GARGALHADAS DO MUNDO. ACHO QUE PODIA TER SIDO ELA A INVENTORA DA PALAVRA "UP". SEMPRE UP, SEMPRE ALEGRE, MESMO QUANDO LHE FAZIAM ALGUMA. A CRISTINA PINTAVA OS CABELOS DE HENA E PASSEAVA-SE EM CASA COM AQUELA PASTA NOS CABELOS. ERA TÃO GIRO! O QUE NOS RÍAMOS COM ELA! A CRISTINA ADORAVA ROUPAS BONITAS ( COMO QUALQUER JOVEM BONITA DA SUA IDADE), PERFUMES E ALGUMA MAQUILHAGEM.

SE EU ME LEMBRO DA CRISTINA?

TODOS OS DIAS.
CADA VEZ QUE ESTÁ UM SOL LINDO, PORQUE APRENDI A DAR VALOR AO SOL.
CADA VEZ QUE PONHO OS PÉS NA AREIA, PORQUE APRENDI A APRECIAR MELHOR A AREIA.
CADA VEZ QUE DOU UMA GARGALHADA, PORQUE AS GARGALHADAS DA CRISTINA ERAM AS MELHORES E MAIS SINCERAS.
CADA VEZ QUE PONHO PROTECTOR SOLAR, PORQUE ME LEMBRO DOS SEUS CREMES E DOS SEUS CUIDADOS.
PORQUE , CURIOSAMENTE ( IRONICAMENTE?), FOI DESDE QUE A CRISTINA MORREU QUE COMECEI A ACREDITAR EM DEUS.
CADA VEZ QUE VEJO 1 ESTRELA CADENTE, POIS NO DIA EM QUE A CRISTINA MORREU FOI A NOITE DA CHUVA DE ESTRELAS CADENTES. ATÉ O CÉU A RECEBEU COMO ELA MERECIA.
CADA VEZ QUE ME LEMBRO DOS SEUS IRMÃOS E PAIS, POIS CONTINUAM NO MEU CORAÇÃO, MESMO QUE PENSEM O CONTRÁRIO.
CADA VEZ QUE ESCREVO, DIGO OU PENSO A PALAVRA IMPORTANTE.

PORQUE A PERDA DA CRISTINA FOI UM MARCO MUITO IMPORTANTE NA MINHA VIDA, PORQUE FOI IMPORTANTE PARA EU REALIZAR O QUE É REALMENTE IMPORTANTE NA VIDA. É IMPORTANTE NÃO ESQUECER, É IMPORTANTE RECORDAR , É IMPORTANTE DAR IMPORTÂNCIA, É IMPORTANTE GOSTAR, É IMPORTANTE O UP, O SOL, A AREIA, AS GARGALHADAS.

É IMPORTANTE APROVEITAR E SABER APROVEITAR.

ONDE QUER QUE ESTEJAS, OBRIGADA CRISTINA.

ANA ANES
19.07.03

de Ana Anes

Em segundos
Se há anjos na terra, a minha avó foi um. Respirava bondade. Espalhava serenidade. Não sabia não sorrir. Mal escrevia e no entanto a sua sabedoria era milenar. Em sentimentos, em conselhos, em vida. A sua pequenez física escondia a luz incandescente de alguém maior. Era uma Senhora. A nossa Senhora. Católica de alma e coração, ia todos os dias à missa. Nessa noite, quando voltava, dirigiu-se como sempre à passadeira. Atravessou. Não chegou a casa.

A morte é um acontecimento demais estúpido. Adiantá-la não é preciso.

As distracções repetem-se. A vida não.

de Leite de Creme


Na Recordação das Vítimas da Estrada - A Lembrança de Quem as Recebe

Em 20 anos de profissão, já assisti no imediato a muitas vítimas de acidentes mortais mas nossas estradas. Muitas histórias poderia contar.
O mais dificil é dar a notícia, e quando a temos que dar a familiares ou amigos a situação torna-se mais amarga.

Há mais de dez anos, o filho de um conhecido meu teve um acidente rodoviário. Como se tratava de pessoas conhecidas na zona, rapidamente a notícia se espalhou e chegou ao conhecimento dos pais. Ainda antes do transporte do sinistrado, já a mãe se encontrava na sala de espera aguardando ansiosamente a chegada do filho trazido pelo 112 da altura, o 115. Desconhecia eu ainda quem era o sinistrado e como tinha visto a mãe, sempre pensei que lá estaria por outros motivos.

O sinistrado era muito jovem, 17 anos, e logo após a entrada, enquanto executava os primeiros gestos automáticos para me inteirar do seu estado (palpar o pulso, ver se respira, se está inconsciente) um bombeiro aponta-me para a cabeça que se encontrava coberta por várias compressas. Ainda antes de calçar as luvas, levantei algumas compressas e deparei-me com uma ferida craneana contusa, perfurante com saída de massa encefálica para o exterior. Era um milagre estar ainda vivo. Mas estava.

Entretanto, chegado o pai já com a notícia de que o filho tinha tido um acidente e de que teria uma ferida na mão. Mal me viu, chamou-me e a sua primeira pergunta foi: a mão salva-se ou não? Nem compreendi a pergunta e respondi-lhe que estava ocupado e que já voltaria para falar com eles. Voltei de imediato para junto do corpo, onde já se procedia a outros gestos básicos.

Depois de tomar a decisão de o transferir de imediato para um hospital central com neurocirurgia, pedi a um enfermeiro para me chamar os pais do sinistrado e entrei noutro gabinete mais isolado para comunicar a gravidade do seu estado e a transferência. Batem à porta e vejo entrar o casal amigo, levanto-me e explico para aguardarem um pouco no exterior, que já os atenderia. Explico que estou à espera de um casal cujo filho teve um acidente de automóvel. "Mas somos nós!", exclamam eles.

Nesse momento fiquei eu sem fala e deixei-me cair na cadeira. Tinha estado com toda aquela família na véspera a comemorar o aniversário do único filho.
E o pai só me perguntava: mas como está a mão? Salva-se a mão?

Arranjei coragem para ser só médico e dizer: "O vosso filho está muito mal! Vai já ser transferido para outro local mais especializado e temo que qualquer coisa de mal lhe possa acontecer durante a viagem. Tem uma ferida muito grande na cabeça e está em coma. A mão de facto está muito mal, mas nem me preocupei. Não se pode perder tempo."

O pai dá um murro na mesa e desata a correr para o seu veículo para perseguir a ambulância que já se dirigia para o local da evacuação.

Ao quarto dia, foi mais uma vítima mortal da sinistralidade rodoviária, que entrou na estatística apenas como ferido grave ...

de Médico Explica Medicina a Intelectuais

Monday, November 17, 2003

A ESTÚPIDA REALIDADE DA SINISTRALIDADE
Acertada a coisa com mais alguns amigos, ele tinha ido divertir-se numa célebre noite na Avenida 24 de Julho, que, sem grandes certezas, acho que se chamava a "noite verde" e decorria na madrugada de 24 para 25; uma festarola à madrilena - Madrid tinha na época várias festanças deste tipo - que envolvia quase todos os bares e discotecas da região e que vinha sendo imensamente apregoada nos meios universitários mais propensos às farras. Ele tinha estado a trabalhar (e a divertir-se, pois então) no estrangeiro durante alguns meses e havia regressado a Lisboa poucos dias antes do badalado acontecimento. Foi, também por isso, dos primeiros a alistar-se para o atractivo programa. Entre os amigos convocados e as amigas e os copos que por lá os esperariam, estavam à partida encontrados os condimentos para que fosse uma noite memorável. E, assim ditou o desgraçado destino, a noite foi mesmo memorável. Tão memorável que os amigos dele ainda hoje a não esquecem. Curiosamente - coisa rara nele - resolveu vir mais cedo para casa, nas avenidas novas, dando boleia a um outro amigo para quem a festa não estaria igualmente a corresponder às expectativas. Caminho mais curto para casa, a Avenida de Ceuta em noite de chuva traiçoeira, transformou-se numa estrada de morte para aquele Honda Civic relativamente recente e convidativo a andar depressa, um pouco depois do Casal Ventoso. O violento acidente retirou-lhe(s) de imediato a vida.
Se houvesse uma escala capaz de medir fielmente as amizades, o Hugo era muito provavelmente o meu melhor amigo...
Tenham cuidado na estrada que pode ser que ainda cá estejam amanhã!

de Último reduto

Dia Europeu em Memória das Vítimas de Acidentes Rodoviários III
Aos 16 anos pediu ao pai para lhe comprar uma motorizada. Queria ter uma. Não lhe fazia falta, era apenas para gozo pessoal. O pai negou-lha, porque era perigoso, e depois, porque não lhe fazia qualquer falta.

Passados dois anos, aos 18, fez o exame para a atribuição da Licença de Condução para Velocípedes com motor. Pediram-lhe que fizesse a trajectória de um oito e que identificasse 4 ou 5 sinais de trânsito, dos mais conhecidos e passaram-lhe a licença.

Como queria começar a trabalhar de dia e estudar à noite, o pai fez-lhe então a vontade: comprou-lhe uma acelera, uma Yahama CT 50 S (Supersport), novinha, vermelha, linda. A mãe ficou preocupada, o pai alertou para o perigo. Cerca de 8 meses antes, o tio tinha morrido de acidente de mota.

Os meses foram passando, algumas quedas aconteceram, um embate contra um automobilista que teimou em não parar num STOP, nada de mais, nada de grave.

No dia 28 de Abril de 1992, cerca de 6 meses depois da compra, vendo que o seu colega de trabalho não aparecia e que começava a fazer-se tarde, acabou de beber o seu café, e agarrando na acelera fez-se ao caminho. Não chegou a fazer 500 metros. Numa curva descendente, e após espreitar, acelerou a fundo e tentou ultrapassar um autocarro.

Não viu o carro que vinha em sentido contrário. Quando deu por ele, já era tarde demais. Tentou desviar-se para um descampado do seu lado esquerdo, mas que atitude estúpida!... Seria para aí que o carro se iria desviar. Deu-se um embate frontal. Foi cuspido, partiu com as pernas o guiador da acelera, foi contra o pára-brisas da viatura, passou por cima da mesma e estatelou-se no chão, a cerca de 10 metros do local do acidente.

Seguiu-se o pânico. Não, não tinha morrido. Nem sequer chegou a perder os sentidos, embora tenha estado lá perto. Juntaram-se várias pessoas, chegou a ambulância. O sangue escorria-lhe pela cara. Apesar de usar um capacete integral (todo fechado), sofreu diversos cortes. Mas o que preocupava não era isso. A perna direita estava virada ao contrário... literalmente. Não se via sangue, apenas se via a perna virada para fora, completamente torcida.

O pessoal da ambulância tomou os cuidados necessários para o transporte, tala na perna, pensos, colar, e fizeram-se à estrada. Chegado à urgência do hospital de Sta. Marta, percebeu que não iria para casa com a perna engessada como esperava.
-Foi de mota ??
-Sim.
-Vocês não têm juízo. Antes de comprar essas porcarias deviam ir a Alcoitão ver o que se passa lá.

Engoliu em seco, e viu a radiografia da sua perna. O fémur, apenas o osso maior e mais resistente do corpo humano, estava partido em dois sítios, tendo o intervalo entre as fracturas, de alguns centímetros, quase que desaparecido, restando apenas pequenos pedaços. Parecia que o osso que existira ali se tinha desintegrado.
-Vais ter de ser operado.

Chorou. Era a primeira vez que seria operado a alguma coisa. Como a equipa de banco só operava às 3ªs feiras, esperou quase um mês pela cirurgia. As dores, os nervos por vezes insuportáveis, eram combatidos com Valium, Xanax e muitos, muitos analgésicos por via endovenosa. A posição, com a perna sob tracção, levantada, engessada, com um ferro a atravessar o osso, perto do joelho, para manter o comprimento do fémur e evitar um início de calcificação fora do sítio, era díficil de suportar. Mas teve de o ser.

Foi operado a 27 de Maio de 1992. Correu bem. Colocaram-lhe uma cavilha no interior do osso, desde o colo do fémur até ao joelho. Iniciou-se então o período mais difícil. Duas semanas depois da operação, saiu do hospital de Sta. Maria, directamente para o Hospital da CUF onde iria ser seguido e onde faria a recuperação e a fisioterapia. Atendido por um médico de clínica geral, foi-lhe dito que o que lhe fizeram em Sta. Maria não estava bem feito. Provavelmente teriam de tentar outro método. Mas, antes de qualquer medida, devia ir lá outra vez no dia seguinte para ser atendido por um ortopedista. E assim foi... no dia seguinte apresentou-se novamente na CUF, de lágrimas nos olhos e ansioso pelo veredicto. O Dr. Ricciardi, o ortopedista, disse que na sua opinião a equipa de Santa Maria tinha feito um excelente trabalho e estava convicto de que tudo ia correr bem.

Iniciou logo no dia seguinte, a fisioterapia de modo a recuperar os movimentos, a força e a massa muscular. O joelho praticamente não dobrava. A perna mantinha-se quase direita. Logo no primeiro tratamento, fartou-se de morder uma ligadura, enquanto as lágrimas lhe escorriam pela cara. Ele deitado de barriga para baixo. A fisioterapeuta, sentada em cima dele, a agarrar-lhe na perna e a puxá-la, provocando dores horríveis. Logo na primeira sessão quis desistir. Não estava para sofrer mais. Preferia ficar assim, com a perna presa direita a ter de passar por aquilo outra vez. Mas passou. Passou por aquilo e muito mais.

Em Dezembro, 8 meses depois, voltou a pisar o chão, primeiro apoiado apenas por uma canadiana, depois, em Janeiro pode finalmente largar tudo e voltar a andar com as suas duas pernas.

Em Maio de 1993, foi novamente operado para que lhe fosse retirada a cavilha e tudo se repetiu. Mas, desta vez, tudo foi muito mais rápido e em dois meses a situação ficou resolvida.

Esta história apesar de tudo acabou bem. Nem todas acabam assim. Apesar de ter sofrido - e acreditem que sofri bastante - fiquei vivo para contar a história e praticamente sem sequelas, se descontarmos uma cicatriz na anca.

de Memorial do Convento

Sunday, November 16, 2003

EM MEMÓRIA DE
Estive num site que publica fotografias de pessoas que tiveram acidentes de viação. Pensei colocar aqui uma foto. Mas depois achei melhor não. Se estamos a assinalar um dia em memória de todos os que morrem diariamente nas estradas portuguesas, achei melhor lembrá-los como eles eram antes do acidente. Como todos somos agora, os que estamos as escrever e os que estamos a ler: vivos, capazes de nos movimentar, capazes de abraçar um amigo, beijar um sobrinho, conversar com um irmão, ajudar um vizinho a carregar as compras, amar com o corpo e com a mente. Capazes de falar com os pais e dizer que chegámos bem, que a viagem foi boa, que temos muitas saudades e que em breve estaremos de novo todos juntos. Para sermos capazes de fazer isto tudo são precisos muitos anos, todos os anos da nossa vida. Cada coisa foi conquistada devagar e muitas chegaram-nos mílimetro a mílimetro. Mas para sermos incapazes de fazer seja o que for, basta um segundo. Na estrada. Um segundo. Um segundo de insensatez, um segundo de falta de bom senso, um segundo de azar. Mas infelizmente, 99,9% dos acidentes nas estradas portuguesas não se enquadram neste segundo de azar. Não é por sermos o povo do fado que temos o "azar" de morrer nas estrada. Não é por azar que morrer na estrada é uma das nossas principais causas de morte. Não somos assim tão azarados. Somos outra coisa. Uma coisa mais vasta e abrangente que não só nos leva a morrer nas estradas, como também nos leva a matar o cérebro em escolas que cultivam a ignorância, que nos leva a matar os velhos numa sociedade que cultiva a indiferença, que nos leva a matar a esperança numa justiça que cultiva a injustiça e que nos leva a matar o bom senso num modo de vida que premeia os espertos e não os inteligentes. Em memória dos que já fizeram esse percurso, vamos por favor, deixar de ser na estrada aquela coisa que começa por um E, acaba num S e pelo meio tem STÚPIDO! Para que o azar seja a única palavra evocada em memória de...

de Blete

morrer na estrada
ontem e hoje repetem-se as histórias de acidentes nos telejornais. duas estradas que me são familiares, IP 3 e 2ª circular, 7 mortos em 24h.
excesso de velocidade, despistes, ultrapassagens perigosas, excesso de bebida, já sabemos... as causas são conhecidas. o que poucos falam é, em que é que acredita quem tem comportamentos de riscos ao volante. acredita que tem um carro seguro, acredita que tem controlo sobre o carro, acredita na sorte, acredita que os outros condutores são uns impecilhos de que tem que se livrar. para mim, estas são as crenças que fazem com que haja tantos mortos nas estradas.
um senhor, que parece que tem responsabilidades na "associação de escolas de condução", veio para a televisão (para contestar um justa penalização) dizer que tem um carro seguro e que como tal, a velocidade máxima permitida nas estradas portuguesas, não se adequa a carros do gabarito do dele, preparado para fazer a auto-estrada a 230km/h... há por aí muita gente convencida acerca da infalibilidade dos seus carros. certas marcas cultivam abertamente este tipo de mitos.

em Portugal valoriza-se demasiado o carro. o carro representa a pessoa, o carro mostra o estatuto, o carro mostra poder. mas estradas portuguesas há demasiados condutores investidos de ideias paranóicas e completamente enviesadas: o meu carro é melhor que o teu, o meu carro anda mais que o teu, o meu carro é mais seguro, o meu carro, o meu carro... muitas representações de poder e dominação: muitos despiques, muitas corridas.
o pior é que esta maneira de pensar é relativamente fácil de ser transmitida e aprendida, e muito díficil de mudar.
mas é preciso mudar. é preciso mudar

de Monólogo



Teste de Agressividade nas Estradas

Condutor AGRESSIVO:
1. É habitual estar com pressa e mudar constantemente de faixa.
2. Estou sempre a tentar ultrapassar e acho que o carro da frente é um obstáculo.
3. Limito-me a abrandar nos stops e por vezes passo no vermelho.
4. Faço inversões de marcha mesmo que proibidas.
5. Conduzo por vezes com pouca atenção ou com sono.
6. Acelero ao ver um sinal amarelo porque detesto parar nos semáforos.
7. Mudo de faixa sem usar os piscas.
8. Fico nervoso ou incomodado quando vejo um veículo da polícia de trânsito.
9. No carro ando normalmente mal disposto e praguejando.

Condutor VIOLENTO
10. Não deixo passar os outros mesmo que tenham prioridade.
11. Ridicularizo ou critico os outros condutores enquanto conduzo.
12. Faço manobras arriscadas enquanto fumo, como, bebo ou uso o telemóvel.
13. Impeço os outros carros de entrar na minha faixa, chegando-me ao carro da frente.
14. Conduzo regularmente mais de 30 km/h acima do limite legal indicado.
15. Ultrapasso a alta velocidade ou aumento as rotações do motor como sinal de protesto.
16. Impeço outros carros de me ultrapassar, sempre que isso me apetece
17. Conduzo colado ao carro da frente para o obrigar a acelerar ou a sair da minha frente.
18. Imagino vingar-me de forma violenta de um outro condutor.
19. Uso os máximos para retaliar.
20. Apito ou grito de janela aberta contra os outros utentes da estrada.
21. Faço gestos visivelmente insultuosos a outros condutores.
22. Uso o meu carro para retaliar, fazendo manobras repentinas e ameaçadoras.
23. Saio do meu carro para discutir aos gritos.

Condutor CRIMINOSO
24. Saio do meu carro para bater ou atirar alguma coisa a outro carro.
25. Transporto uma arma e ameaço outros condutores.
26. Agrido ou espanco por uma discussão de estrada.
27. Tento empurrar um outro carro para a berma para punir o condutor.
28. Ameaço atropelar alguém que me enraiveceu.
29. Alvejo outros carros.
30. Já matei por uma disputa de trânsito.


Confesso que muitas vezes sou culpada do ponto 6... Dá que pensar este teste. Hoje é um bom dia para revermos as nossas atitudes quando estamos atrás de um volante.

de Limbo

PREVENÇÃO RODOVIÁRIA
O autor deste blog defende que se deve tomar medidas imediatas, simples, eficazes e baratas para reduzir a sinistralidade rodoviária. Para a implementação desta proposta deve ser realizado um concurso aberto a todos os cidadãos para proporem medidas desse tipo. As ideias adoptadas devem ser premiadas.

Exemplo:

Proponho que sejam abolidas as passadeiras sem semáforos. Nos locais onde elas existem e a travessia dos peões se torna difícil devido ao tráfego intenso, devem existir agentes munidos de raquete vermelho-verde que fazem parar o trânsito para que os peões possam atravessar com segurança.

Esta proposta tem as seguintes vantagens:

Pode ser posta imediatamente em prática, basta mandar pintar de preto as riscas brancas.

É simples.

É mais barata que a instalação de semáforos nas passadeiras que não têm.

A medida já foi tomada noutros países e revelou-se eficaz.

Tem ainda a vantagem de gerar postos de trabalho com a colocação de agentes nos locais de difícil travessia.

de Hora absurda


Mais uma Boa Causa
A pedido da Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, e por iniciativa d' O Bisturi, aqui fica a chamada de atenção para a Guerra que por aí vai nas nossas estradas.
Nobre ideia, à qual a tripulação do "Marítimo" se associa. Haja mais respeito e moderação por parte de todos os cidadãos condutores e mais competência e preocupação por parte daqueles que constroem e equipam as nossas estradas. Tirem o pé do acelerador e a cabeça da areia e ponham a mão na consciência.

de Marítimo



de Adufe

HOMENAGEM FLORIDA
ÀS VÍTIMAS DOS ACIDENTES RODOVIÁRIOS

As flores fazem parte do nosso dia a dia, em todas as ocasiões, mesmo se nem sempre damos por elas! Estão presentes nas ruas, nos casamentos e nos baptizados, nos aniversários e nas festas!
Mas também estão presentes nos velórios e nos cemitérios.
Quem dera que não perfumassem as campas de vítimas inocentes... de pessoas que foram atropeladas ou que iam, serenas, nas suas viaturas, e morreram colidindo contra loucos ou inebriados!
Por isso, as flores deste blog estão solidárias nesta homenagem.

de Linguagem das flores

PALAVRAS PARA HOMENAGEAR
Já começou a febre do Natal e a loucura dos brinquedos. Tenho uma amiga, que se chama Isabel, que trabalha no continente na secção dos brinquedos. Comentei estes dias com a minha amiga Fátima que deveríamos falar com ela para guardar brinquedos para nós. A Fátima respondeu que nunca mais a tinha visto...
Dias depois, diz a Fátima:
- Nem te passa o que aconteceu à Isabel! Imagina que ela estava a sair do continente com uma colega de trabalho e viram o autocarro a chegar ao longe. Foram então mais rápido, pela PASSADEIRA, quando, de repente, surge uma mota de nenhures. Só tiveram tempo de se desviar, a colega mais à frente e a Isabel mais atrás... A colega morreu logo e a Isabel está de baixa em casa há um mês.
Pois é... A Isabel está em estado de choque há um mês porque viu a morte à sua frente, por duas vezes, a morte da colega e a sua própria morte, se fosse o seu autocarro a chegar, em vez de ser o da colega!
Não sei mais pormenores... Não sei se o condutor tinha bebido demais... Mas o que é certo é que ia em excesso de velocidade! Já que as pessoas não respeitam os peões porque não colocam lombas naquela zona? Quantas pessoas mais vão morrer em PASSADEIRAS? Quantas pessoas mais vão perder a vida e deixar filhos pequenos órfãos por causa da irresponsabilidade de alguns?
Não é justo!...

de Palavras em férias

O país sem parapeitos
Era uma vez um país em que as janelas e as varandas eram construídas sem parapeitos. Apesar de morrerem milhares de pessoas, e outros milhares ficarem estropiadas e permanentemente inválidas, por caírem de janelas e varandas, nesse país alguns diziam que os parapeitos não faziam sentido, pois ninguém seria tão tolo ao ponto de se aproximar de janelas e varandas desprotegidas.
Nesse país, apesar de todos terem um amigo que já caíra de uma janela ou de uma varanda, toda a gente continuava a morar em casas construídas sem parapeitos, e achava que os que caíam eram descuidados ou tinham azar.
E mais azar tinham os que morriam porque alguém lhes caía em cima (e não eram poucos).
Nesse país havia associações de cidadãos que tentavam lutar contra esse modelo de construção instituído, mas nem construtores civis, nem agentes imobiliários, se mostravam minimamente interessados em alterar o padrão de construção dos edifícios.
E continuavam a construir-se prédios cada vez maiores, cada vez mais altos. E quanto mais se construía, mais gente morria em consequência de quedas das janelas e das varandas sem parapeitos.
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Esta história é absurda, dir-me-ão. Não passa pela cabeça de ninguém construir edifícios sem parapeitos nas janelas e nas varandas. Não faz sentido.
Pois é... Mas este país sem parapeitos não é ficção. Existe e chama-se Portugal.
Todos os dias, cidadãos deste país desafiam a morte, embebedando-se à beira das janelas ou praticando equilibrismo nas varandas. Alguns pensam até que a sua virilidade é directamente proporcional à altura dos edifícios onde praticam tais habilidades.

É preciso dizer: basta!
É preciso construir parapeitos e encher as varandas de floreiras e as janelas de vasos, e tornar este país mais belo.
Para que as flores não sirvam apenas para encher os cemitérios.

de Cidadão do Mundo

A Guerra

Todos os dias irmãos meus são...

Feitos reféns em hospitais, acorrentados a cadeiras de rodas e andarilhos, e obrigados a arrastar até ao fim os imensos pesos de tetraplegias.
Sofredores de stress pós-traumático, conducente ao suicídio.
Lançados por ribanceiras sem pára-quedas.
Atropelados por tanques nas ruas.
Afogados em rios sem barcos de salvação.
Trespassados por lanças de aço, com dilaceração do corpo e exposição do cérebro.
Queimados vivos, encarcerados nas suas viaturas.
Decapitados por lâminas aguçadas de rails.

Apenas soltos...

Para serem cobertos de terra, sete palmos abaixo. E riscados definitivamente dos cadernos da conservatória.

Porque dizem, então, que não há pena de morte em Portugal?

de O Bisturi

Dia Europeu em Memória das Vítimas de Acidentes Rodoviários II
Por vezes, quando desço a escada do prédio onde moram os meus pais, ao passar pelo 1º direito, vem-me um cheiro a torradas. Não umas torradas quaisquer, mas torradas feitas com pão alentejano, bem tostadas. Ainda me lembro do barulho da faca a raspar o excesso de queimado, para logo a seguir encher ambos os lados de manteiga que se derretia e escorria para o prato. Tenho esta lembrança desde pequeno. Desde que me lembro. Cresci naquele prédio. Os vizinhos eram como família.

No 1º andar direito, moravam a Alice e a Marta, mãe e filha. A Alice era uma senhora alentejana, muito bem disposta, sempre alegre. A Marta é da minha idade, andámos juntos na escola, fomos nomeados namoradinhos de infância. Por vezes, eu, a Marta, a minha mãe e a Alice saíamos. Íamos passear. No Verão íamos até à mata de Benfica, ou passear pelos campos floridos da Venda Nova (quando ainda eram campos e quando ainda eram floridos). Muitas vezes, de manhã, após as compras, acabávamos em casa da Alice a beber café com leite e a comer aquelas torradas deliciosas, cujo cheiro se entranhou na minha memória.

O pai da Marta, morreu quando tínhamos 14 anos. As duas irmãs casaram e saíram de casa. Naquela casa, viviam apenas as duas, mãe e filha. Uma completava a outra, uma fazia companhia à outra. Passaram-se anos assim. Eu e a Marta crescemos, as nossas mães amadureceram, os nossos laços mantiveram-se.

Um dia, ao chegar a casa, vindo do trabalho, a minha mãe com os olhos húmidos diz-me que a Alice morreu. Não quis acreditar. A Alice transmitia saúde a quem a visse. Como poderia ter morrido? Mas morreu. Não de doença, mas devido à incúria de um automobilista. Morreu, sem qualquer aviso, atropelada numa passadeira para peões quando chegava a casa após mais um dia de trabalho. Atropelada, arrastada alguns metros, numa rua a subir e com bastante inclinação, por um condutor distraído. Morreu ali. O condutor, nem sequer tinha seguro...

A Marta ficou sozinha, apoiada pelas irmãs, pelos vizinhos, pelos amigos.

Quando o cheiro de torradas paira no ar, penso na Alice e na sua morte...

de Memorial do Convento

Dia Europeu em Memória das Vítimas de Acidentes Rodoviários I
Hoje, dia 16 de Novembro, a Associação de Cidadãos Auto-Mobilizados, evoca o Dia Europeu em Memória das Vítimas de Acidentes Rodoviários. Neste dia vai ser deposta uma coroa de flores, junto ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra, na Avenida da Liberdade em Lisboa, pela 11 horas, prestando assim uma homenagem aos milhares de mortos da grande guerra civil que todos os dias se trava nas estradas portuguesas.

Todos nós já convivemos de perto com este flagelo que é a sinistralidade, através de familiares, amigos, conhecidos ou até através de nós próprios. Eu considero que as vítimas de um acidente rodoviário não são apenas as vítimas mortais. São também as suas famílias. São também aqueles que não morrendo, ficam de alguma forma afectados pelo acontecimento. A sinistralidade rodoviária é um problema social, é um problema de todos nós. Todos somos potenciais candidatos a ser mais um número na estatística. A consciencialização de todos tem de ter origem em cada um de nós.

de Memorial do Convento